Desenvolver competências e habilidades é função da escola de ensino básico? Ou esta deve limitar-se à construção de conhecimentos intrínsecos nesse nível de ensino? Questionamentos como estes surgem para reacender um eterno debate: a função social da escola
Necessariamente, é preciso antes de se tentar arriscar qualquer resposta a esse questionamento, ter claro o que de fato significa trabalhar por competências e habilidades na escolarização básica. O equívoco inicial está em acreditar que ao se trabalhar focando o desenvolvimento de competências, esquece-se da construção de conhecimentos – vale lembrar que esta última é entendida aqui não como o mero repassar enciclopédico da cultura geral e sim como condição base de quase todas as ações humanas que exigem algum tipo de conhecimento. A medida que as ações humanas ficam mais complexas, mais conhecimentos aprofundados e confiáveis elas exigem. Essa busca por tais conhecimentos assertivos, surge da mobilização realizada por cada individuo, que não é espontânea e necessita de esquemas mentais para que se efetive.
A constante exposição dos indivíduos à mobilização destes esquemas, traz a tona a visualização de outro conceito abordado nesta discussão: as habilidades. Segundo Perenoud, no momento em que se faz o que “deve ser feito” sem sequer pensar, a ação já torna-se habilidade e, por conseqüência, parte integrante da competência. As habilidades podem ser entendidas como o conjunto de mobilizações rotineiras que já tornaram-se esquemas mentais de alto nível, permitido decisões e atitudes competentes. Paradoxalmente, quanto mais eficaz for a competência, mais ela aparenta desaparecer.
É uma hipótese muito sedutora a possibilidade do ensino básico dar conta do desenvolvimento de competências e habilidades, porém, vale a analise da intencionalidade e limitação organizacional que se encontram os sistemas de ensino atuais. As competências são inerentes à sociedade humana, diferentemente das demais sociedades animais que têm suas organizações e funcionamento predeterminados, a sociedade humana permite intervenção criativa, incerta e inédita de seus integrantes, natural, portanto, que preocupem-se em desenvolver competências correspondentes.
A intenção que parece mais evidente é a incorporação pelo mercado de trabalho das noções de competências, despertando nas escolas o desejo/necessidade de “preparar desde cedo” seus alunos para além dos muros da escola. Até aqui nada de novo, apenas o antigo dilema: ensinar apenas pela intelectualização, com base nos conteúdos ou atribuir ao ensino um caráter imediatista, de utilidade funcional?
Parece óbvio que encontrar um equilíbrio entre as duas abordagens seja o caminho para a resposta à indagação inicial sobre a função da escola. No entanto, a busca por esse equilíbrio carece passar pela apreciação minuciosa dos personagens que constroem a escola em seu dia-a-dia.
A controvérsia que desponta no contexto que privilegia o desenvolvimento por competências e habilidades, consiste na idéia de que poderá ser implantado sem promover quaisquer rupturas. No ato de uma discussão em defesa do desenvolvimento de competências e habilidades, não se pretende a retirada dos conteúdos e conhecimentos disciplinares do ambiente escolar; ao contrario, reafirma-se sua necessidade uma vez que as competências apóiam sua validade em conhecimentos produzidos. O que torna-se inevitável ser admitido é a necessidade de que a metodologia utilizada atenda a fundamentos chave para o sucesso desta abordagem, propiciando situações de aprendizagens diferenciadas, estimulando a articulação entre saberes e competências, proporcionando uma constante mobilização dos conhecimentos por parte dos alunos, tornando-os capazes de deliberar com competência situações inéditas. O importante é que tal metodologia deva estar alerta à tentação de buscar constantemente um “fazer” imediato para todos os conteúdos escolares, visto que isso seria uma |