Cuidado por uma genial intuição, Friedrich Nietzsche escreveu sobre os aleijados às avessas. Aleijados que têm em demasia algum órgão do corpo. Por exemplo, alguém que fosse uma orelha, uma grande e dominante orelha. Esse homem que fosse apêndice de sua própria e imensa orelha ouviria demais, preocupado demais com o que se diz. Teria informações auditivas em excesso. Seria vitima de sua maravilhosa audição.
Um homem que não passasse de uma grande boca seria outro tipo de aleijado às avessas. Sua capacidade de abocanhar e mastigar lhe traria imensos sofrimentos. Boca por excelência, passaria o dia engolindo a tudo e a todos. Sua capacidade devoradora seria sua ruína.
Outro aleijado às avessas: o homem-olho. Aquele olho observador, atentíssimo, absorvendo mais imagens do que a mente humana possa concatenar e compreender. Quanta dor essa visão abrangente ofereceria ao homem-olho! Quantos motivos de medo!
E o homem-nariz, então!? Quantos cheiros e aromas perseguiriam essa pobre criatura, “abençoada” pela tremenda capacidade de possuir, ou melhor, de ser nariz? E sendo nariz poderoso, tal homem padeceria horrivelmente. Porque seria sobre tudo nariz, saberia que nenhuma flor é flor que se cheire, que todo perfume esconde fedor, que todo fedor prenuncia a dor.
Todos somos propensos a desenvolver algum tipo de deformação às avessas, hipertrofiando algo de nós, transformando-nos em seres superdotados em um único aspecto, limitados pelo fato de ultrapassarmos os limites.
Posso me tornar um homem-mão. E essa tamanha habilidade para pegar, fazer, manipular... Será motivo diário para um cansaço indescritível. Ou posso me tornar homem-pescoço, homem-joelho, homem-ventre, homem-ombro – em todas essas situações, e em todas as demais possibilidades que nos ocorra imaginar, serei prisioneiro de uma melhoria localizada, de uma perfeição fragmentada, de um tudo que é nada.
O aleijado às avessas tem, na sua força, a sua fraqueza. Tem, na sua especial competência, a sua maior incompetência.
Educar para a completude é impedir que uma especialização, por prestigiosa que seja, se transforme em capacidade incapacitante. Educar para a completude consiste em desenvolver, com o Maximo de harmonia possível, as diferentes dimensões de uma pessoa.
Que o talento para os esportes não atrofie o gosto pela leitura. Que o gosto pela leitura não sufoque a atividade física. Que nossos membros e sentidos cresçam de maneira proporcionada. Difícil equilíbrio, sem duvida, e por isso mesmo tão necessário.