No dia 29 de setembro, completam-se cem anos da morte de Machado de Assis, uma oportunidade para redescobrir seus personagens, revisitar sua obra e reavaliar a importância daquele que hoje é considerado o maior expoente da literatura brasileira – e que invariavelmente a parecem na relação dos autores cobrados nos vestibulares. “Machado de Assis é aposta certeira nos vestibulares. Ele é não apenas o nosso maior escritor, como provavelmente nosso maior artista, podendo ser equiparado aos grandes nomes da cultura ocidental. A Universidade Federal do Paraná (UFPR) costuma fazer um rodízio dos livros do autor nos seus processos seletivos. Este ano, a instituição irá cobrar Dom Casmurro. Já a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) incluiu o livro Contos Fluminenses em seu edital”, aponta o professor João Amalio Ribas (ou simplesmente professor Joãozinho), do Curso Acesso.
Machado de Assis era mulato, gago e epiléptico, o que não o impediu de ser reconhecido, ainda em vida, como o maior nome das letras brasileiras. “Ele produziu crônicas, críticas, teatro e poesia, mas se destacou mesmo nos contos e romances. Nesses gêneros, ele é considerado um gênio” explica Joãozinho, lembrando que o escritor foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
Segundo o professor, a obra de Machado é comumente dividida em duas fases: romântica e realista. Da primeira, constam os romances Iaiá Garcia, Ressurreição, Helena e A mão e a luva, além do livro de poemas Crisálidas e dos Contos Fluminenses. “Este livro de contos traz um Machado que ainda não havia atingido o ápice de ceticismo, ironia e pessimismo da fase realista. Por outro lado, encontramos na publicação características – ainda que embrionárias – que se tornarão marcas machadianas, como a metalinguagem”, afirma.
A fase realista é marcada por romances consagrados como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, com seu famoso personagem-defunto. “O narrador morto é perfeito para a literatura realista, pois não está sujeito às hipocrisias da sociedade que o cerca e pode apreciá-la, e a si mesmo, de forma critica”, avalia. Ainda segundo Joãozinho, a obra inaugura procedimentos literários que só seriam disseminados décadas depois, como o uso de mensagens telegráficas, omitindo palavras que se subentendem.
Inovações como essa, explica o professor, transformaram Memórias Póstumas num dos romances mais significativos do autor, ao lado da trama de Bentinho e Capitu. De acordo com Joãozinho, o grande enigma de Dom Casmurro não é a existência ou não de adultério, como normalmente se supõe. “A chave da leitura não é saber se Capitu traiu ou não o marido. A grande sacada é saber se é possível confiar no que diz o narrador”, alerta. O romance é narrado em primeira pessoa por Bentinho (o suposto marido traído), o que permite manter questões sem elucidação até o final da narrativa.
O professor ressalta que o estudante deve evitar o uso de fórmulas prontas de interpretação do romance. “Os professores normalmente recomendam aos alunos que optem pela ambigüidade quando a questão se refere à suposta traição de Capitu. Recentemente, porem, a prova da UFPR trouxe um conto de Dalton Trevisan que incrimina a personagem e perguntou se, na opinião do escritor, havia ou não existido adultério. O aluno deveria responder que sim”, alerta.
Marcela Campos |