Quando terminei de escrever um artigo sobre o ensino da Língua Portuguesa, entrei em contato com o editor de uma revista a fim de publicá-lo. Após ler meu texto, ele me enviou a seguinte reposta: “Caro professor, podemos publicar o seu artigo, mas faça uma correção, pois ele está cheio de erros de Português.”
Reconheço que senti minha carreira de escritor definhar-se ainda no começo. Restou um alívio em saber que minha caixa de e-mail era pessoal e minha senha, secreta. Não era mais possível esconder o fato de ser um professor de um curso de Letras, mas... esses tais “erros”... eu bem que poderia tentar enterrá-los.
TROPEÇO Teria eu escorregado na “casca de banana” colocada na esquina do texto pela gramática normativa? Que jeito? Fui ao artigo. Lá estavam os “erros” – alguns descuidos de digitação. Dedos a mais nas mãos! Eu era, na pior das hipóteses, um péssimo digitador. Que alívio! Minha honra estava salva! Até quando?
Enfim, enviei o artigo corrigido e esse foi publicado. Recebi elogios por ele. Então, voltei a refletir sobre meus “erros”. Louvei o trabalho do editor, mas algo me assustou severamente na sua resposta, e era justamente aquela expressão: “erro de Português.” Talvez esse seja o maior “delito” entre os brasileiros, o mais humilhante e o que não tarda a sentenciar o seu réu. O “bicho-papão” do ensino do Português.
GENIOS TAMBÉM ERRAM.... Crescemos dentro de escolas que não toleram infringimentos contra a “lei da Língua”, e essa tal expressão – “erro de Português” — persegue nossas crianças como fazem os fantasmas nos filmes de terror, porém, nesse caso, o filme jamais acaba.
Os telejornais são frenéticos em exibir entrevistas com políticos picaretas que, envolvidos em máfias, corrupções, caixa dois, CPI’s e todo tipo de pilantragem se esmeram em não cometer nenhum “crime” contra a “Língua Portuguesa”. Tudo menos isso.
Lembrei-me de um episódio da vida íntima de Albert Einstein: certa vez, como era de costume, Einstein dirigiu-se ao terminal de ônibus a fim de viajar de Caput para Berlim. No guichê, verificou não ter dinheiro suficiente para a passagem. Lamentou o descuido e recusou aceitar o bilhete a crédito oferecido pelo chefe da estação. Revirou os bolsos e nada mais encontrou, então resolveu adiar a viagem. Ao guardar as moedas, recontou-as e, para sua surpresa, tinha dinheiro suficiente. Não havia sido preciso no primeiro cálculo: “Ora, vejam só”, comentou sorrindo, “que grande matemático eu sou”.
Felizmente, os físicos e matemáticos não duvidam da genialidade de Einstein por isso. Mas a sociedade duvida da competência de alunos que se descuidam nas colocações pronominais ou nas escolhas das preposições; são “incapazes” de obedecer à gramática normativa. Os descuidos se dão em todas as áreas, contudo, os “erros de Português”, são considerados imperdoáveis. Não deveriam ser os delitos matemáticos com muito mais sentenciosos?Afinal, os cálculos sempre são exatos e imutáveis, já a “gramática da norma”... er.. nem tanto.
PERCEPÇÃO Ah! Como sabe se expressar e fazer textos brilhantes o aluno que não se envergonha por seus “erros de Português”. Ele, aos poucos, vai percebendo que pode fazer produções magníficas usando muitas linguagens, inclusive a culta.
O meu trauma está sendo reproduzido, todos os dias, em escolas de todo o Brasil. Entretanto, sempre vai existir um “Einstein da Língua” que não se incomoda com os descuidos – sabe que há algo além do “erro”.
Bem, reconheço que deveria ter revisado com maior cautela aquele artigo, afinal, era um texto escrito e para publicação. Mas se esses “erros” renderam-me esta crônica, talvez devesse ser mais distraído, pois não é raro que fora do padrão a arte costume ter muito bom gosto.
Autor:Baktalaia de Lis Andrade Leal |